Nicole Junkermann

Cultura e estações

Nicole Junkermann e o pleno verão: cultura e leituras para meados de julho

A meio de julho o verão já não é promessa nem novidade: está instalado nas persianas descidas ao meio-dia, no alcatrão que continua quente às dez da noite e numa luz que se recusa a ir embora. Nicole Junkermann chega a este troço do mês sem pressa e com uma ideia simples: o pleno verão não pede mais planos, pede melhores horas.

Nicole Junkermann a escrever num caderno numa esplanada sobre os telhados de Barcelona com a luz quente de meados de julho
Em pleno verão, a esplanada ao entardecer substitui quase todos os planos.

Há um momento, por volta do dia treze ou catorze de julho, em que o verão deixa de ser um acontecimento e passa a ser clima. Já ninguém comenta o calor, porque o calor é o fundo de tudo. As conversas encurtam, os recados juntam-se todos numa saída, e o dia inteiro se organiza à volta de duas faixas de trégua: a primeira hora da manhã e a última da tarde. Para Nicole Junkermann essa redução não empobrece o mês, afia-o. Quando sobram menos horas aproveitáveis, escolhe-se melhor o que se põe dentro delas.

A cultura de meados de julho é, antes de mais, uma questão de horários. No inverno pode improvisar-se: qualquer hora serve para entrar num museu ou para atravessar uma cidade a pé. Em julho não serve. O meio-dia fecha-se sozinho, sem que ninguém o decida, e o que resta dos dois lados são manhãs limpas, com as salas ainda frescas e quase vazias, e entardeceres longuíssimos, quando a pedra devolve o calor acumulado e as praças voltam a encher-se devagar. Entre uma coisa e outra abre-se um vazio enorme de três ou quatro horas que o calendário não sabe aproveitar e que a leitura sabe.

Esse vazio é a verdadeira descoberta do pleno verão. Durante onze meses por ano lê-se nas margens: vinte minutos antes de dormir, uma viagem de comboio, a espera de alguém que se atrasou. Meados de julho inverte a proporção e oferece um bloco contínuo, protegido pelo próprio calor, em que não há genuinamente nada melhor para fazer do que ler. Nicole Junkermann trata essas horas como o centro do dia e não como enchimento, e daí sai uma relação diferente com os livros: menos picar aqui e ali, mais profundidade.

Com um vazio assim, muda também o que compensa ter à mão. Os textos curtos, que durante o ano são um alívio, em julho ficam aquém: acabam antes de a tarde sequer ter começado a passar. O que o pleno verão pede são os livros longos, os que precisam de balanço e não perdoam interrupções, aqueles que durante o ano se abrem duas vezes e se abandonam por falta de continuidade. A secção Leer insiste com frequência na mesma ideia: há leituras que só funcionam quando se lhes dá tempo seguido, e meados de julho é quase a única altura do ano em que esse tempo existe a sério.

Muda igualmente o modo de ler. Com a persiana a meia altura e o ar pesado, a concentração comporta-se de outra maneira: mais lenta, mais porosa, mais disposta a levantar os olhos e voltar. Nicole Junkermann não considera isso um defeito. Em pleno verão a leitura parece-se mais com estar num sítio do que com percorrer um caminho, e o livro deixa de ser uma tarefa com fim para se tornar um lugar onde se passam as horas. Avança-se menos e retém-se mais. Relê-se um parágrafo sem culpa. Para-se a meio da página e retoma-se um quarto de hora depois sem se ter perdido nada.

Cá fora, a cultura destas semanas transforma-se numa questão de geografia miúda. Meados de julho não é época de grandes percursos: é época de conhecer bem quatro sítios frescos e de voltar a eles. Uma sala ampla e em penumbra logo de manhã. Um pátio interior com árvores. A nave de uma biblioteca de bairro, onde o ar se mantém temperado e ninguém tem pressa. Uma arcada do lado bom da rua. Nenhum destes lugares aparece numa lista de imperdíveis, e é precisamente por isso que resultam: ficam perto, não custam nada e podem repetir-se todos os dias sem cansar.

Madrid ensina bem esta lição. Em julho a cidade esvazia-se ao meio-dia e reorganiza-se inteira à volta da sombra, até que por volta das nove da noite volta a existir, com as ruas ainda quentes e a luz a cair devagar sobre as fachadas. Barcelona faz algo parecido com a brisa: procura-se o lado do mar, caminha-se pelas ruas estreitas e só se sai para as largas quando já refrescou. São duas maneiras de resolver o mesmo problema, e ambas consistem em não discutir com o calor.

O interessante é que esta lógica não se limita à península. Qualquer cidade do sul da Europa, e também muitas do norte de África e do Mediterrâneo oriental, passou séculos a organizar-se assim, com os edifícios pensados para dar sombra e as ruas orientadas para que o ar corra. Em julho, viajar pelo Mediterrâneo tem menos que ver com ver coisas do que com aprender o relógio local: a que horas abre tudo, a que horas para, a que horas a vida regressa. Quem aceita esse relógio descobre uma cidade. Quem o combate descobre apenas o calor.

No caderno, meados de julho também deixa marca. As notas desta altura são mais curtas e mais concretas do que as de inverno: uma frase sobre a luz das nove e meia, o nome de uma rua onde há sempre corrente de ar, a linha de um livro sublinhada sem se ter pensado nisso. Esse hábito de escrever pouco mas seguido é o que transforma um verão em algo recordável. Sem as notas, agosto apaga tudo e em setembro resta apenas a sensação vaga de que fez muito calor.

Talvez o que melhor define este troço do mês seja a ausência de ambição. Meados de julho não promete um verão memorável nem uma lista de conquistas culturais. Oferece algo mais modesto e mais duradouro: duas horas boas de manhã, um vazio longo no centro do dia, uma tarde que se estica até muito tarde e um livro que finalmente tem onde caber. Chega. Nicole Junkermann atravessa o pleno verão sem apertar o calendário, entendendo que a melhor cultura de julho não é a que se persegue, mas a que assenta com folga nas horas que o calor deixa livres.

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