Nicole Junkermann

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Ler à sombra: o guia de Nicole Junkermann para as tardes longas de julho

Em julho a sombra deixa de ser um conforto e passa a ser infraestrutura. Tudo o resto assenta nela: o passeio, a conversa e, sobretudo, a leitura. Este é o guia de Nicole Junkermann para as tardes longas do mês, organizado à volta das únicas três coisas que importam quando o calor aperta: onde, quando e como.

Nicole Junkermann a ler e a tomar notas à sombra de um pátio caiado com buganvília numa tarde de julho
Um pátio em penumbra, uma cadeira e uma tarde longa: a fórmula completa de julho.

Onde: a sombra que serve

Nem toda a sombra é igual, e em julho a diferença revela-se em dez minutos. Há sombra que apenas tapa o sol e continua a ser um forno, e há sombra que é mesmo fresca, porque o ar corre por ela ou porque a pedra passou séculos a aprender a não aquecer. Para Nicole Junkermann essa distinção é o ponto de partida de qualquer tarde de leitura: antes de escolher o livro convém escolher bem o sítio, porque é o sítio que decide quanto tempo se aguenta.

A melhor sombra de julho costuma ser antiga e vertical. Um pátio interior caiado, com uma parreira ou uma árvore ao centro, mantém vários graus abaixo da rua sem precisar de mais nada. Uma arcada faz o mesmo na horizontal, com a vantagem de mudar de lado à medida que a tarde avança. Os claustros e as galerias das casas velhas funcionam pela mesma razão: foram construídos exatamente para isto, muito antes de existir outra forma de arrefecer uma divisão.

Depois há a sombra pública, que é gratuita e está mal aproveitada. A sala grande de uma biblioteca de bairro, com os tetos altos e o estore descido. Um parque de árvores de copa larga, do lado que já perdeu o sol. Um banco às costas de um edifício virado a norte. Nenhum destes lugares tem mérito turístico e todos têm mérito prático, que em julho é o único que conta. Na secção Notas aparecem uma e outra vez sítios pequenos desta espécie, escolhidos porque ficam perto e se repetem sem cansar.

E há a sombra de casa, a mais fácil de desprezar e a que mais rende. Uma divisão com o estore a meia altura, a janela aberta em cima e uma corrente cruzada é, entre as quatro e as sete da tarde, melhor sítio para ler do que quase qualquer outro. Não tem vista nem dá fotografia. Tem silêncio, e em julho o silêncio também refresca.

Quando: o feitio da tarde longa

A tarde de julho não é um bloco, são três troços distintos, e confundi-los é o erro corrente do mês. O primeiro vai do fim do almoço até meio da tarde: são as horas impraticáveis, que só admitem penumbra e imobilidade. O segundo começa quando o sol deixa de bater a direito e dura até ao entardecer: é o troço da leitura longa, o melhor do dia. O terceiro chega com a luz já baixa, quando a cidade volta a encher-se e ler se torna uma coisa sociável, feita a meias entre a página e o que se passa à volta.

O que torna julho extraordinário é o tamanho desse segundo troço. Nestas latitudes a luz aguenta até muito tarde, o que significa quatro ou cinco horas seguidas de leitura possível antes de ser preciso acender um candeeiro. Nenhuma outra época do ano oferece coisa parecida. Nicole Junkermann trata essas horas como o principal ativo do verão, e daí sai uma regra simples: primeiro reserva-se a tarde, depois encaixam-se os recados.

O terceiro troço merece nota à parte, por ser o mais subestimado do dia. Quando o sol já se foi mas ainda não é preciso luz artificial, há uma meia hora longa em que o ar finalmente se mexe, a temperatura desce de repente e a página se lê com uma clareza estranha, suave e sem reflexos. É o momento em que a maioria fecha o livro para sair. É exatamente o momento de o abrir.

Como: ler sem combater o calor

Resolvidos o sítio e a hora, o resto é não complicar. O calor impõe a sua própria disciplina e agradece as decisões tomadas de antemão, enquanto ainda se pensa com clareza. São estas as que sustentam uma tarde longa de julho:

  • Escolher o livro de manhã, e não às cinco da tarde, quando já não apetece decidir nada.
  • Um só livro por tarde, e que seja longo: em julho há espaço para entrar mesmo dentro de alguma coisa.
  • Sentar-se de costas para a luz, nunca de frente, ainda que a vista fique pior.
  • Água ao lado e o telemóvel noutra divisão, a única forma fiável de a tarde durar.
  • Um lápis para sublinhar, porque o verão apaga tudo e as notas são o que sobrevive a agosto.

Nada disto é sofisticado, e é essa a graça. A leitura de julho não precisa de método nem de propósito, precisa que não a interrompam. A secção Leer volta sempre ao mesmo argumento: o obstáculo quase nunca é a falta de tempo, é a fragmentação do tempo que há. Em julho, por uma vez, o tempo chega inteiro, e basta não o partir.

Convém também aceitar que se vai ler mais devagar, e que está bem assim. Com calor a atenção fica porosa: levantam-se os olhos, olha-se para a parede, volta-se à linha. Nicole Junkermann não trata isso como falha mas como o registo próprio da estação. Menos páginas percorridas, mais páginas retidas. Reler sem culpa. A tarde medida em horas de permanência, não em capítulos terminados.

A tarde que não acaba

Ler à sombra em julho é, no fim de contas, uma maneira de habitar o dia em vez de o atravessar. A cidade entrega-se a quem aceita o seu horário: Madrid desaparece ao meio-dia e reaparece às nove; Barcelona procura o ar do mar e percorre-se melhor pelo lado estreito. As duas pedem a mesma coisa, que é esperar, e esperar em julho faz-se melhor com um livro.

Dessa espera sai aquilo de que depois nos lembramos do verão, que quase nunca é o plano grande mas a tarde concreta: o pátio, a cadeira, a corrente de ar, as páginas que passaram sem se dar por elas. Nicole Junkermann atravessa assim as tardes longas de julho, sem lhes exigir nada de extraordinário e confiando em que a sombra, bem escolhida e à hora certa, já é programa que baste.

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